Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação
Diário de uma República III - Habitação

A casa como ruína política

Ensaio a partir da peça de teatro A Casa Morreu — Diário de uma República III

Nelson d’Aires

O que resta da ideia de casa quando a habitação se transforma num direito que já não protege?
Em A Casa Morreu, esta pergunta não surge formulada como tese, mas encenada como impasse. A casa não aparece como cenário nem como metáfora reconfortante. Surge como matéria dramática em falha, espaço exausto, lugar onde a vida já não se organiza de forma contínua. Não falha por ausência, mas por saturação: excesso de discurso, de gestão, de explicações que se acumulam sem produzir transformação.

A peça abre com um jogo mínimo de perguntas e respostas que instala desde logo uma relação de desigualdade no olhar:

“O que vês daí?”
“Tanta gente sem casa.”

“E tu, o que vês daí?”
“Tanta casa sem gente.”

“E tu, o que vês daí?”
“Tanto dinheiro.”

“Com ou sem gente?”

Nada aqui se sintetiza. Gente, casas e dinheiro nunca aparecem juntos na mesma frase. O problema da habitação é apresentado como dissociação estrutural, não como erro corrigível.

O dispositivo dramatúrgico desenvolve-se de forma coral. As vozes repetem, ajustam, enumeram. Os papéis deslizam sem nunca se fixarem. Não há personagens psicológicas; há posições sociais transitórias dentro de uma engrenagem reconhecível. As tipologias habitacionais sucedem-se como fórmulas técnicas até se tornarem grotescas. Quartos dentro de quartos, camas partilhadas, divisões improvisadas. O espaço deixa de organizar a vida e passa a fragmentá-la. O que se perde não é apenas espaço físico, mas intimidade, continuidade, possibilidade de permanência.

A linguagem ocupa um lugar central neste colapso. O texto convoca discursos institucionais e administrativos não para os parodiar, mas para os deixar operar até ao limite. Tudo é explicado. Tudo é justificado. Ainda assim, nada se resolve. A palavra já não protege; administra. É neste contexto que surge uma fala de Fernando, assumindo explicitamente a forma de um discurso de Estado: “Portuguesas e portugueses. Venho despedir-me.” O poder fala, mas fá-lo para anunciar a retirada. Não governa, não decide, despede-se. A confissão que se segue — “Não sei. Não sei. Não sei, não sei, não sei.” — não é gesto de humildade, mas de abdicação. Depois de tudo ter sido nomeado, explicado e repetido ao longo da peça, o “não sei” surge como forma elegante de encerrar o discurso sem assumir responsabilidade. A ignorância não resulta da falta de informação, mas da impossibilidade estrutural de agir.

A invocação poética — “Uma casa é a coisa mais séria da vida” — não introduz uma solução, mas um limite. O verso é verdadeiro, mas insuficiente. Ao desejar que toda a legislação sobre habitação se reduza a essa afirmação, o discurso revela a falência da lei enquanto instrumento de organização da vida material. A lei deixa de organizar a vida para passar a celebrar a sua própria insuficiência. A afirmação de que “deveria caber aos poetas a escrita das nossas leis” surge menos como utopia do que como gesto de desespero. Quando a política falha, tenta salvar-se pela linguagem.

Esse gesto conduz ao colapso formal do discurso. A enumeração caótica de matérias legislativas fragmenta-se, tropeça, perde coesão. A linguagem desfaz-se em cena. O discurso soberano já não consegue sustentar a totalidade que pretende regular. O encerramento é seco: “Tenho dito.” E logo depois: “Eu vou saltar.” A peça recusa esclarecer o estatuto deste gesto. O que se torna evidente é a inexistência de uma saída discursiva. Quando a casa já não protege, quando o direito já não garante, quando a linguagem já não organiza, resta apenas a interrupção.

Neste quadro, a casa deixa definitivamente de ser lar para se tornar mercadoria abstracta. A vida organiza-se em função da renda possível, do contrato temporário, do quarto disponível “por agora”. Dormir transforma-se numa conquista instável. Descansar torna-se intermitente. Habitar deixa de ser condição para passar a negociação permanente. A pergunta desloca-se quase sem darmos conta: já não é “onde viver?”, mas “até quando é possível viver assim?”.

As minhas fotografias e as de Augusto Brázio operam num regime próximo do da peça. Não ilustram nem comentam o texto. Funcionam como campos de tensão autónomos. Espaços marcados por restos, por objectos deslocados, por corpos em resistência silenciosa. O quotidiano surge despido de heroísmo, mas carregado de densidade ética. Cada imagem insiste numa evidência simples e difícil: o problema da habitação não é abstracto nem estatístico; é físico, material, imediato.

Ao longo do espectáculo, a ideia de casa desloca-se progressivamente. De abrigo para ausência. De promessa para ruína. A casa morre quando deixa de garantir aquilo que a funda: a possibilidade de uma vida digna. Quando isso acontece, não é apenas um edifício que falha. É a própria arquitectura do contrato social que se esvazia, sendo substituída por mecanismos de gestão da escassez e da impossibilidade.

A Casa Morreu não oferece soluções nem consolo. Insiste na ferida aberta. Ao fazê-lo, afirma algo simples e radical: uma casa não é um privilégio, nem um produto cultural, nem um activo financeiro. É condição de existência. Quando deixa de proteger, deixa de cumprir a sua função política mais elementar. E quando a casa morre, o que entra em crise não é apenas o espaço habitável, mas a própria possibilidade de imaginar um comum que valha a pena habitar.

Nelson d’Aires, 2025

Ficha artística e técnica

Direcção ArtísticaFernando Giestas
Apoio à Direcção ArtísticaRafaela Santos
FotografiaAugusto Brázio e Nelson d’Aires
InterpretaçãoDaniel Teixeira Pinto, Fernando Giestas e Rafaela Santos
Apoio ao MovimentoPietro Romani
CenografiaHenrique Ralheta
Desenho de LuzGuilherme Pompeu
MúsicaJosé Pedro Pinto e Leonardo Outeiro
Operação TécnicaMarlene Ramos
Operação de SomLeonardo Patrício
Consultoria ArtísticaAlex Cassal e Fernanda Eugénio
Equipa Amarelo Silvestre

Marlene Ramos e Susana Figueira Henriques (Produção Executiva),
Carla Ramos (Gestão),
Cátia Veloso Marques (Mediação),
Maria Inês Santos (Redes Sociais)
ProduçãoAmarelo Silvestre


Mais informação (clique no link)