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Um colectivo no Museu, Jean-François Chougnet

Nos últimos trinta anos, vários fotógrafos por todo o mundo têm optado por se unir em coletivos para partilhar forças de trabalho, de produção e de difusão. O trabalho de fotógrafo freelancer sempre foi difícil para autores que desejam viver das suas criações. Ao juntarem o seu talento coletivamente, esses fotógrafos tentam, entre outras coisas, proteger o seu status e os seus direitos autorais. Enquanto coletivo, os fotógrafos ganham uma certa liberdade que a atual situação económica da imprensa e do fotojornalismo não permite. O modelo de coletivo inicia-se com a Magnum, cooperativa de fotógrafos, que surgiu em Paris a 1947, liderada pelo fotógrafo Robert Capa. Para além de Capa, participaram também na Agência Magnum nomes como David Seymour, ou Henri Cartier Bresson. A Magnum surgiu e mantém-se como uma agência em forma de cooperativa onde os fotógrafos são sócios. A partir desta experiência, diversas agências por todo o mundo foram surgindo, como as agências Gamma (criada em 1966 e vendida no final da década de 80) e Viva (1972-1986) em França, ou a Agência F4, fundada no final dos anos 70 em São Paulo e em seguida no Rio de Janeiro e encerrada a 1991. A partir dos anos 90, este modelo de agências, baseado no recurso das vendas aos órgãos da comunicação social entra em crise e aparece o “coletivo”, onde a coesão artística substitui o conceito de cooperativa económica e jurídica. Esta situação reflete-se também na instalação progressiva da fotografia no campo da arte contemporânea. Em França, o país de origem do conceito de coletivo em fotografia, um dos grupos mais ativos é o “Tendance Floue”, criado em 1991 e composto por treze fotógrafos, que trabalha retratos e paisagens chamados tópicos “íntimos”, bem como temas da atualidade. Exposições, muitas vezes seguidas de catálogos e várias publicações na imprensa, fazem assim viver o coletivo. Outros grupos, como o “Collectif 6 bis”, formado por artistas internacionais, optam por utilizar no seu trabalho outros meios, como o vídeo, por exemplo. França conta também com o “Collectif Item”, um espaço de trabalho coletivo que proporciona o tempo e os recursos necessários para construir temas originais pensados como narrativas fotográficas completas. Por sua vez, o coletivo de Nantes chamado “Ícone verde” convida outros fotógrafos ou grupos de fotógrafos interessados nos “micro eventos” a criar um banco de imagens na web. Todavia, nem todos os grupos têm uma grande longevidade. O coletivo “l’Œil public” é exemplo disso pois recentemente deixou de existir, como pode ser lido no seu website “fim da história”, uma história que ainda durou 15 anos.

Em Portugal, a existência destes coletivos está pouco presente na história da fotografia, no entanto a [kameraphoto] é uma exceção. Este coletivo de fotógrafos foi fundado em Janeiro de 2003 e agrega diferentes olhares da fotografia contemporânea portuguesa. O coletivo, comprometido com a criação e realização de projetos coletivos, conta com produções individuais. Enquanto estrutura a [kameraphoto] empenha-se fundamentalmente em abrir um espaço crítico sobre a fotografia: a fotografia é sempre, ao mesmo tempo, documento e estética. O coletivo [kameraphoto] está habituado a desafios incomuns e projetos atípicos, como A State of Affairs (projeto apresentado em 2009 na Plataforma Revólver em Lisboa), onde 13 fotógrafos acompanharam a agenda diária de 13 redações por todo o mundo, durante uma semana, ou Diário da República que tenta dar memória visual a uma década de profundas mudanças através de dez livros publicados ao longo de 2013.

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) recebe entre 17 de Maio a 28 de Setembro de 2014 a exposição Olhares Contemporâneos, fruto da terceira edição da Residência Fundação EDP, que teve o próprio MNAA como local de trabalho. A residência de sete dias permitiu que os fotógrafos tivessem um acesso exclusivo a todos os espaços do Museu e acervo incluindo as suas dinâmicas logísticas – da manutenção à segurança, bem como um contacto privilegiado com os conservadores, técnicos e visitantes. As imagens que daí resultaram estão expostas no jardim do MNAA.

A fotografia feita nos museus – onde o museu é igualmente sujeito – é, desde os anos 80, um género em si. Basta recordar as séries de Candida Höfer (exibidas em Portugal a 2006) ou as “Museum Photographs”, feitas pelo artista alemão Thomas Struth, que mostram espectadores de reconhecidos museus a olhar para as pinturas expostas. A série de Thomas Struth levanta em particular muitas questões sobre o papel do espectador e sobre a nossa relação com a história da arte.

Esta exposição recupera esse espírito, mas concretiza-se numa iniciativa original. Olhares Contemporâneos resulta da liberdade de circulação concedida pela direção do MNAA aos artistas, fruto de uma generosidade excecional: convocar olhares, por detrás de câmaras – subjetivos, descomprometidos. A residência no MNAA contou com oito dos seus membros – Alexandre Almeida, Augusto Brázio, Céu Guarda, Guillaume Pazat, Jordi Burch, Nelson d’Aires, Pauliana Valente Pimentel, Valter Vinagre.

Jean-François Chougnet // Curador