Imagem Verso

Nelson d'Aires

Quinze olhares detêm-se no território de Valongo, e desse gesto nascem imagens.
Outros quinze olhares pousam sobre essas imagens, e delas extraem o rumor das palavras.
Entre o instante da luz e o ritmo do verso, o livro desenha o seu território comum — um lugar onde ver e dizer se confundem, onde a fotografia pensa e a poesia vê.

Nada aqui ilustra nada. Cada fotografia é uma interrogação; cada poema, uma deriva possível. No espaço entre ambas instala-se uma escuta: o silêncio do visível que o poema tenta habitar, o que parecia imóvel ganha suspensão, o que parecia esquecido emerge.

É nesse espaço que se reconfigura a partilha do sensível. O comum, o banal, o invisível encontram forma; o que antes era excluído da visão ganha presença.
Aqui reside a política da arte: não pregar mensagens, mas mudar o olhar, reinventar o mundo no seu instante mais frágil e mais intenso.

O que a fotografia fixa, o poema move; o que o poema nomeia, a imagem suspende.
Este livro é, portanto, um atlas de correspondências, um exercício de atenção partilhada. Um modo de afirmar que a arte não explica o mundo, mas antes o mantém em suspenso: oferecendo-nos tempo — tempo para ver, para escutar, para pensar de novo o que julgávamos já visível.

Nelson d’Aires